A criança e suas descobertas

A sexualidade da criança começa no imaginário dos pais, antes mesmo do nascimento. Todos os pais têm expectativas conscientes em relação a seus filhos, e uma delas diz respeito à sexualidade da criança que, ao nascer, pode ou não corresponder às expectativas dos pais e desenvolver-se conforme a aceitação dos mesmos. A partir do nascimento, podemos pensar sobre a curiosidade sexual infantil de uma maneira geral: autodescobrimento do corpo, eliminação de excreções, diferenciação dos sexos, nascimento, puberdade e adoloscência.
A sexualidade existe desde o nascimento, embora não se manifeste inicialmente nas regiões genitais. A sexualidade é o próprio “impulso da vida”, é aquela mola que impulsiona a criança ao seu desenvolvimento. O primeiro local onde esta energia se manifesta é na boca, através da qual a criança terá seus primeiros contatos com o mundo e é através dela que o bebê recebe “o alimento e o afeto”, cedidos pela mãe, que quando oferece o seio ao filho não proporciona apenas o alimento necessário à sobrevivência dele, mas transmite também amor, afeto e segurança, pois o contato corporal “mãe-criança” é o ponto de partida, é a base para uma boa formação da estrutura da personalidade de um novo ser. O bebê deve e precisa ser acariciado, ter muito contato corporal, e o pai também pode e deve participar, pois é uma figura de elevada importância para a formação da identidade da criança.
Hoje em dia, as crianças em sua maioria já sabem que o bebê “sai da barriga da mãe”. Mas esta é a resposta mais simples, e perguntas complementares ainda suscitam dúvidas e ansiedade no momento de serem respondidas, principalmente quando questionam, por exemplo, “como o bebê entrou na barriga da mãe?”. Além disso, comportamentos infantis que demonstram a sexualidade da criança são muitas vezes difícies de serem trabalhados, tanto em casa quanto na escola. Brincadeiras de descoberta sexual, masturbação, atitudes que aparentam homossexualidade, são alguns fatos comuns observados no cotodiano infantil e que seguidamente são mal compreendidos ou mal conduzidos pelos adultos que lidam com crianças. Portanto, faz-se necessário um maior entendimento sobre a sexualidade e o desenvolvimento infantil para que o manejo destes comportamentos sejam mais adequados.
Para responder questionamentos desse tipo, deve-se ter claro que se a criança tem idade para perguntar, tem também idade para ouvir a resposta. Assim, o tom de voz, o olhar, a postura de quem responde devem ser valorizados para que não sejam artificiais e repressores.
Alguns de vocês podem se perguntar: “Será que tanta informação não acabará por estimular para a direção errada?” Ou então pensar: “Eu não recebi educação sexual alguma e estou muito bem!”
Contrariando preconceitos, pesquisas mostram que crianças esclarecidas tendem a ser mais responsáveis e a adiar o início de sua vida sexual (até porque sua curiosidade foi devidamente saciada) para o amadurecimento, fazem uso de anticoncepcionais e escolhem melhor os parceiros. Para satisfazer a curiosidade infantil, o adulto deve seguir alguns princípios: saber o por que e de onde vem a pergunta, ser honesto, restringir-se à pergunta feita sem estender a resposta, progredir com base no que a criança já conhece, fornecer explicações em uma linguagem simples e familiar. Sempre que possível, responder no momento em que a criança solicita e repetir a reposta se for necessário. Há ainda a frequente dúvida sobre quem deve falar com a criança. O ideal é que o casal faça isso juntos, pois oferecerão visões diferentes e enriquecedoras, mas isso dependerá da identificação que a criança tiver com os pais ou com um deles em especial naquela fase da vida, ou ainda, do temperamento de cada um. Pode ser mais fácil para um dos dois tocar neste assunto, evitando o “jogo do empurra”. Ajudará se o casal discutir claramente entre eles antes de conversar com a criança.
Outra dúvida muito comum, é a respeito da criança dormir na cama dos pais. É uma situação absolutamente contra-indicada e que exige muita firmeza. A cama dos pais pode ser o lugar perfeito para gostosas brincadeiras antes de dormir ou quando a família acorda pela manhã, mas não é recomendável que o filho tome o lugar de um dos pais ou que fique entre eles. Elas geram fantasias que não são benéficas ao desenvolvimento emocional, além de ser necessário dar a noção de privacidade aos filhos. Se a criança alegar medo, é preferível que um dos pais vá à cama dela e a tranquilize e volte à sua cama em seguida.
Enfim, diante de tantas descobertas e dúvidas, caso não consigam lidar sozinhos com esta situação, peçam a ajuda de um profissional.
A sexualidade infantil é inerente a qualquer criança e sua demostração será particular. Assim, cabe aos pais e educadores conhecê-la, entendê-la e conduzi-la de forma adequada, sem estimulação nem repressão, tendo sempre em mente uma auto-reflexão de sua própria sexualidade.

Juliana Gibello, Psicóloga, CRP 06/78111