Ameaças

O que elas causam numa criança e num adulto?
Acho importante pensar neste assunto, porque vejo, com freqüência, crianças sendo ameaçadas por seus parentes ou por conhecidos.
Progredir na ARTE DE COMUNICAR-SE é um programa ambicioso.
Outro dia, no supermercado, escutei uma pessoa, possivelmente uma mãe, ameaçando seu filho de uns quatro anos: “Você quer apanhar?”
Não achei estranha a ameaça, porque já a escutei muitas vezes, mas penso, qual criança responderia: “Quero sim, por favor, me bata...”
O mundo pode melhorar, e muito, se as crianças não receberem ameaças.
Imagine uma criança de dois anos, na fase onde começa a controlar o xixi e o cocô.
Imagine esta criança recebendo críticas, porque ainda não consegue controlar. Imagine esta criança, já com três anos, recebendo uma ameaça: “VOU CONTAR PARA TODO MUNDO QUE VOCÊ FAZ XIXI NA ROUPA!”
O que será que esta criança sente?
Será que a vergonha e a timidez começam por uma ameaça recebida?
Há de se pensar que uma surra é algo concreto. Um tapa, um puxão de orelha, um cascudo, são coisas sentidas, reais, naturalmente não recomendadas. Mas, uma ameaça desperta a imaginação negativa:
"O QUE SERÁ QUE ACONTECERÁ COMIGO?"
- “Pára, senão te bato!”
- “Não faça isso, senão te bato!”
- “Vou te pegar...”
- “Se eu te pegar você vai ver...”
- “Não te levo para pessear... Não te dou mais mesada... Não faço mais nada para você...”
E outras ameaças, que todos conhecemos. O que dói mais? Uma chinelada que você conhece ou uma ameaça desconhecida? Platão, no seu livro A República, condenava as estórias de bicho-papão.
Se você quer filhos corajosos, não conte estórias pavarosas a eles.
Se você quer filhos livres, descontraídos, de bem com a vida, cuide para não ameaçá-los. O velho manual de educação exigia dos filhos obediência a qualquer custo.
E qual era este custo? Ameaças, violência, chantagens, e outras técnicas não recomendadas. Assustar ou apavorar uma pessoa é uma técnica de PODER.
Estamos na era da comunicação. Explique, converse, convença, ajude a criança a raciocinar, faça perguntas, argumente, tenha tempo e paciência para educá-la, sem apelar. Motivar para os estudos é uma tarefa muito atual, esteja atento para não ameaçar. Será que as ameaças motivam?
Muitas pessoas têm vergonha ou medo de falar em público. Elas sentem-se ameaçadas e são ameaçadas pela própria imaginação.
O estado de ALERTA é a CONSEQÜÊNCIA de ameaças sofridas? Temos que pesquisar. Feliz reflexão!

Dr. Adilson Rodrigues,
Médico Psiquiatra,
Psicoterapeuta