Voltar

Lima e os Livros (www.blogdogaleno.com.br)

Nascido menino pobre no Desemboque, no interior de Minas, Ariclenes sonhava com a cidade grande. Queria trabalhar no rádio e conhecer as cantoras famosas, que eram os grandes ícones da vida nacional.
Só que Ari vivia num lugarejo longe de tudo e de todos, num mundo completamente oposto àquele que imaginava para si. Mas não conseguia vislumbrar a chave que mudaria a sua vida. E enquanto a sorte grande não chegava, ajudava o pai na lida do gado e vendia fotografias da mãe, uma atriz de circo.
Até que certo dia subiu num caminhão rumo a São Paulo decidido a botar o pé na estrada, como tantos ali já tinham feito. Haveria de ter um lugar ao sol para ele.
Apeou no meio do caminho. Resolveu ficar por uns tempos em Ribeirão Preto, onde os novos ricos tomavam o lugar dos barões do café. Tinha então 16 anos. Foi morar em pensão e arrumou emprego de carregador numa loja de materiais de construção. Os novos ricos que aos poucos assumiam o lugar dos barões do café impunham um novo surto de progresso. E toma carga pesada na cacunda do rapaz.
Por isso, foi uma benção aquele dia em que os livros entraram, sem querer, na vida dele. Ari só queria fugir um pouco do sol quente, que fazia a mercadoria em suas costas pesar mais. Empacou diante do belo casarão. Botou o vaso sanitário no chão e entrou. Antes, deu uma espiada, pra ver se alguém olhava. Aquela seria a decisão mais sábia da sua vida.
Lá dentro, porém, levou um baita susto: o solar dos Junqueira (de frente pro Pedro II, o majestoso teatro ópera do país dos coronéis), não era mais o mesmo. Agora, funcionava ali uma... biblioteca!
Dito e feito. Tomou o primeiro livro à mão e leu o título, em letras garrafais: Grandes Esperanças, de Charles Dieckens. Folheou algumas páginas e teve vontade de espiar melhor. Gostou do que viu. Leu mais umas. Quando deu por si, havia lido muitas delas. Já não conseguia parar.
Daquele dia em diante, os livros nunca mais sairiam da sua vida. Uma companhia constante. Enfim, a chave que faltava.
No primeiro teste para locutor, Ari tropeçou no sotaque caipira. Mas não desanimou. Logo arrumou emprego de office-boy na Rádio Difusora de São Paulo e, em seguida, seria promovido para operador de som e sonoplasta. Os livros eram a sua companhia constante. Um dia surgiu a chance de fazer ponta numa radionovela e ele a agarrou.
Meio século depois, e ainda um leitor voraz, Lima Duarte (afinal, Ariclenes Venâncio,seu nome de batismo, não era lá, como ele próprio dizia, nome de artista que se prezasse) não tem nenhuma dúvida. Do alto da glória justamente conquistada, o ator diz que os livros foram a sua tábua de salvação.
— Eu era só um analfa... – diverte-se ele, enquanto procura na estante um novo livro para ler.

Outros