Voltar

Lipodistrofia: efeito colateral do coquetel contra aids (E.E.R.P. - USP)

A terapia antirretroviral de alta potência, popularmente conhecida como coquetel contra aids, conseguiu modificar o curso da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), de uma doença fatal para uma doença crônica. Além de causar um enorme impacto na história de sua evolução e prognóstico, a terapia antirretroviral aumentou a sobrevida e promoveu a melhoria da qualidade de vida e redução dos episódios mórbidos entre as pessoas vivendo com HIV/aids.
Dados do Programa Nacional de DST/aids apontam que no Brasil, cerca de 620 mil pessoas vivem com HIV/aids. O município de Ribeirão Preto ocupa o sexto lugar em coeficiente de incidência de HIV/aids em todo Brasil, e o terceiro lugar no Estado de São Paulo.
No Brasil, a redução do número de óbitos, que tinham como causa básica a aids, coincide com a adoção da terapia medicamentosa com antirretrovirais e a introdução da nova política de distribuição gratuita desses medicamentos pelo Ministério da Saúde, que hoje beneficia cerca de 180 mil pacientes com as 17 diferentes drogas antirretrovirais disponíveis. Adicionalmente, observa-se que o uso sistemático da terapia antirretroviral determina uma possível redução da transmissão do HIV, em consequência da redução da carga viral no sêmen, nas secreções cérvico-vaginais e no leite materno. Entretanto, a terapia antirretroviral não é capaz de erradicar a infecção pelo HIV sendo necessária a manutenção prolongada da terapêutica para o controle da multiplicação viral.
Infelizmente, diversos efeitos colaterais têm sido associados à terapia antirretroviral prolongada, particularmente com o uso de inibidores da protease viral. Dentre esses, a síndrome da lipodistrofia com alterações na distribuição corpórea de gorduras e várias anormalidades metabólicas, incluindo a dislipidemia, acompanhada de hiperlipidemia com aumento nos níveis sanguíneos de colesterol e triglicérides, resistência à insulina, acidemia lática e osteopenia. Recentemente descrita, uma das principais consequências da dislipidemia, é o surgimento precoce de doença coronariana em pacientes tratados com a terapia antirretroviral, a exemplo da aterosclerose. Ademais, outro efeito colateral associado ao uso prolongado de inibidores da protease, é a resistência à insulina, com risco aumentado para o surgimento da diabetes mellitus. As alterações na distribuição corpórea de gorduras caracterizam-se por hipertrofia centrípeta do tecido adiposo, com aumento progressivo da circunferência abdominal e torácica, aumento da gordura visceral e alargamento da região dorso-cervical, com a formação de gibas, também denominadas como “pelota cervical” ou “corcova de búfalo”. Ainda relativo às alterações corpóreas, a lipoatrofia caracteriza-se pela redução de tecido adiposo na face, predominantemente no sulco nasogeniano, o que confere aspecto de enrugamento e envelhecimento precoce, nas nádegas e nos membros superiores e inferiores, e consequente realce da circulação venosa periférica.
Dentre os segmentos corporais afetados, a lipoatrofia em face é referida como um importante fator estigmatizante, deixando-os mais vulneráveis na identificação da sua soro-positividade e, consequentemente, na degradação de sua auto-estima e socialização. Frente à ocorrência da síndrome da lipodistrofia em cerca de até 80% dos indivíduos que recebem o tratamento antirretroviral, o Ministério da Saúde instituiu a Portaria nº 2.582, de 2 de dezembro de 2004, que inclui na Tabela do Sistema de Informações Hospitalares do SUS os seguintes procedimentos para pacientes com a síndrome da lipodistrofia, decorrente do uso de antirretrovirais: 1) lipoaspiração de giba, gordura acumulada na parte posterior do pescoço; 2) lipoaspiração de parede abdominal; 3) redução mamária; 4) tratamento da ginecomastia; 5) lipoenxertia de glúteo; 6) reconstrução glútea; 7) preenchimento facial com tecido gorduroso e 8) preenchimento facial com metacrilato.

Profª Drª Ana Paula Morais Fernandes
Deptº de Enfermagem Geral e Especializada
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP
ege@eerp.usp.br

Outros