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Lucilia - A esposa esquecida de Villa- Lobos


“Villa-Lobos manifestou desejo de me ouvir tocar ao piano alguns números de Chopin e ficou encantado”.
Lucilia Guimarães falando de seu primeiro contato com o maestro, em 1912, então um ilustre desconhecido. O que iria fazer na pequena cidade de Nova Rezende, escondida nas montanhas do sul de Minas Gerais, a quase 1500 metros de altitude, a esposa de Heitor Villa-Lobos, Lucilia Guimarães, no final dos anos trinta? Havia deixado a então capital do pais, o Rio de Janeiro para se embrenhar e viver naquela quase vila, barrenta e fria, longe do conforto e do agito artístico e cultural.
O irmão dela Dr. Álvaro Guimarães, médico nascido e formado no Rio de janeiro, estava estabelecido na cidade. Segundo o escritor, jornalista e testemunha da história de Nova Rezende, já que nasceu lá, Mouzar Benedito, o Dr. Álvaro, morava na cidade há algum tempo. Lucilia foi atrás do irmão para se afastar do trauma e dos burburinhos que a recente separação do então marido Villa-Lobos causava. Durante uma turnê pela Europa, de Berlim, em 1935, ele lhe mandou uma carta através da qual rompeu o casamento, abruptamente. Uma união que tivera início em 1913, apesar das restrições da mãe de Lucilia, que não gostava da vida boêmia do genro, que se gabava de ter noivado em oito ocasiões. Villa-Lobos tomara a decisão da separação, pois estava encantado e apaixonado por sua secretária e assistente e que havia sido sua aluna, a jovem Arminda Neves, conhecida como Mindinha, 25 anos mais nova que ele. Quem insistira para que ele desse aulas para Mindinha fora a própria Lucilia. Lucilia que além de uma eximia pianista era formada em solfejo e canto coral pelo Instituto Nacional de Música, foi apagar as mágoas e o trauma da separação, um escândalo para a sociedade da época, se refugiando naquela cidade mineira.
A maioria das biografias de Villa-Lobos assinala a importância de Lucilia, no acabamento estético de suas primeiras composições, apresentadas a partir de 1915, quando de seu primeiro concerto, usando o rigor da formação musical dela como suporte estético e sempre o acompanhava ao piano. Quem cita muito esta esquecida passagem de Lucilia pela cidade de Nova Rezende no final dos anos 30 é minha mãe Nadir, que teve a chance de sentir a sensibilidade musical dela quando criança na pequena escola da cidade. Lucilia tentando esquecer as agruras da abrupta separação procurou conforto ensinando e estimulando o canto coral para os pequenos alunos da única escola de Nova Rezende.
Foi precursora do ensino da música e do canto em escolas públicas do Brasil, como atividade didática e em Nova Rezende minha mãe teve a grata satisfação de ter sido ensinada na arte musical por Lucilia.
Esta convivência na infância com a esposa de Villa-Lobos, que ensinava aquelas crianças simples de uma cidade perdida nas montanhas mineiras, certamente a levaram a ter um fecundo gosto pela música e a adquirir com muita dificuldade e esforço, um piano nos anos 50, onde até hoje toca diversas melodias. Seus arquivos da memória buscam inspiração naquela senhora elegante, regendo o coro de crianças da escola de uma infância feliz e inocente, sem saber na ocasião que ela havia ido parar lá em Nova Rezende apagar a tristeza do casamento desfeito.
Um casamento moldado e lapidado pelos acordes musicais de Lucilia ao piano e Villa-Lobos ao violoncelo.
Muitos dizem que sem a virtuose da pianista Lucilia o gênio de Villa-Lobos nunca teria sido despertado, pois ela foi a catapulta que o levou ao sucesso e o seu suporte nos momentos iniciais e cruciais de sua carreira.
O piano ainda faz parte do cenário da casa de minha mãe, onde ocupa um lugar de honra e é uma forma dela lembrar de Lucilia, esposa de Villa-Lobos, que tanto foi marcante em sua infância, quando de sua permanência e estadia na pequenina Nova Rezende.
Além disso, fez uma discreta e singela homenagem, perpetuando a lembrança de Lucilia ao dar seu nome a uma de suas filhas.

Aurélio Cardoso
Pesquisador, historiador, crítico e ativista cultural
Membro fundador do CineClube Cauim

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